segunda-feira, 9 de maio de 2011

AOS 80 ANOS, ELE É O PONTA DE XERÉM.


Seg, 02 de Maio de 2011 21:00 Marcos Benjamin (Assessoria de Imprensa)


Em meio aos troféus da recepção do Centro de Treinamento do Vale das Laranjeiras, em Xerém, na Baixada Fluminense, o “bom dia!” vindo de um recepcionista pode parecer normal. Mas este senhor, discreto e solícito, com a voz embargada pelo tempo e cabelos brancos que entregam a distância percorrida de uma vida inteira dedicada ao Fluminense, não é um simples funcionário. Joel de Souza Martins, ou simplesmente Sr. Joel, traz nos olhos marejados pelo tempo um pedaço da rica história do clube na memória. Ele foi companheiro de Telê, Castilho, Carlyle, Pinheiro e Didi no título do campeonato carioca de 1951. Joel era o ponta esquerda daquele timaço e ao lado de Telê cumpria a função, revolucionária daquela época, de voltar para marcar, esquema implantado por Zezé Moreira, então treinador do time.

Joel com 80 anos, está no Flu desde 1948 e de lá pra cá respirou e viveu o Tricolor. Já foi observador técnico das categorias de base e hoje trabalha tranquilamente como recepcionista em Xerém e se orgulha de ainda vestir as três cores que traduzem tradição.

- Desde que cheguei aqui, eu já sabia que viveria pelo Flu para sempre. Foram momentos memoráveis. Aproveitei cada minuto e hoje é prazer ver os meninos lutando para um dia poder viver o que vivi neste clube. Torço por isso – falou.

Joel era um jogador, habilidoso, veloz e tinha um chute forte. Não se contentava em só marcar e, junto com Telê, era responsável por voltar para marcar até o seu campo quando o time não tinha a bola nos pés. Obviamente, não deixamos de conversar sobre futebol. Joel contou como era o clima entre os jogadores naquela época:

- O grupo era excelente. Tínhamos uma energia positiva muito grande. Nosso treinador era muito bom e disciplinador também. O grupo é muito técnico. Era difícil segurar o time.

- Sr. Joel, tenho médico marcado para agora, pode ver na lista meu número? – interrompeu um jovem jogador no balcão.

- Sim, se encaminhe para o departamento médico que eles irão atender você lá – completou Joel.

- É isso. É gratificante você trabalhar em um lugar no qual todos te respeitam e principalmente gostam de você – comentou.

Sobre o esquema tático, Joel foi enfático e sincero ao falar sobre o sistema de jogo atual da maioria dos clubes do mundo:

- Lamento muito a extinção dos antigos pontas. Eles desafogavam o jogo quando estava truncado. Naquele tempo não tinha essa de jogar com três volantes, era tudo com três atacantes. E no Flu de 51, fazíamos um bom trio de ataque. Eu, Telê e Carlyle. Eles eram craques – balbuciou com nostalgia.

O ex-jogador também lembrou bons meninos que viu passar em Xerém e que hoje fazem sucesso no futebol:

- O menino que joga hoje no Santos, o Arouca, é um excelente rapaz, me respeitava demais. Tudo que ele tem hoje é merecido pelo ser humano que é – confidenciou.

Outro rapaz de ouro é o Marcelo (joga no Real Madrid): instruído, educado e consciente, além de ser um baita jogador – disse.

Na pausa para o almoço, ele pede licença e, antes de ir para o refeitório, sobe as escadas para o pavimento onde mora e volta de short e camiseta cinco minutos depois:

- É hora dos meus exercícios! – ressalta.

Isso mesmo, o senhor de 80 anos mostra disposição de um menino e pega pesado nos aparelhos. Entre um exercício e outro, ele faz a confissão:

- Sabe, isso aqui é minha vida. Sem isso, não sei o que seria de mim.

- É Sr. Joel, também estou precisando malhar – respondi

- Não, eu não me refiro a isso. Me refiro ao Fluminense. Sem isto aqui eu não seria ninguém. O Fluminense é tudo na minha vida. Aqui aprendi a ser homem, respeitar a todos – declarou sorridente.

Nenhum comentário: